Em Busca do Centro

Onde tudo começa

Sou alguém em constante retorno à origem. Não me movo pela superfície, mas pelo centro. Existe em mim uma força silenciosa que me puxa para antes do tempo, da linguagem e da separação, um lugar onde tudo ainda é inteiro, onde não há fragmento, apenas presença.

Não me reconheço no excesso, na velocidade ou no ruído. O visível, para mim, é apenas uma camada, uma ilusão. O essencial não se mostra, sustenta. Carrego a busca por uma verdade profunda, invisível e fundadora. Uma verdade que não se prova, apenas se vive.

Há uma força gravitacional que me atrai para o início, para o eixo, como se tudo o que vejo, sinto e penso fosse apenas superfície. Assim como o oceano, acredito que também temos um ponto de partida absoluto: um lugar escuro, profundo, inaudível e desconhecido.

Pinto movido por essa atração. Pinto para me aproximar do centro do universo a partir do eu, não como afirmação, mas como busca. A pintura é o caminho que encontrei para alcançar aquilo que não pode ser explicado, nomeado ou plenamente expresso.

Sinto que a realidade visível é fragmento. As cores não decoram nem ilustram: elas iluminam abismos, como luz lançada sobre o fundo do oceano. Iluminam territórios psíquicos anteriores à consciência. A cor é o gesto que ousa tocar o que não se vê.

Não pinto para explicar. Pinto para lembrar.

Lembrar que existe um ponto anterior ao tempo e à linguagem. Um início absoluto. A origem.
Antes da emoção. Antes do pensamento. Um início de plenitude máxima, de luz infinita e sabedoria eterna.

Busco a fonte da vida.

Henrique Bulcão